ADOLESCENTES
06 abr 2011 2 Comentários
em Educação
Convivendo com os adolescentes todos os dias, como educadora em uma escola pública, tenho tido a oportunidade de observar e refletir sobre as necessidades e carências desse grupo, teoricamente tão privilegiado e acolhido pelas leis do país, incluindo o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), mas ao mesmo tempo tão excluído de seus direitos e deveres, mais ainda de seus direitos. Direito de aprender, conhecer, refletir, amadurecer.
Vejo que os adolescentes, de uma maneira geral, têm muito tempo livre, pouco compromisso com os estudos, não têm um trabalho fixo – mesmo porque não podem trabalhar, por lei –, raríssimas oportunidades de frequentar um clube recreativo, desejo extremo de se divertir, serem úteis e produtivos para a sociedade. O que lhes resta é preencher seu tempo livre com o que é de mais fácil acesso e, de preferência, que não tenha custos.
Verifico que a grande diferença nesse grupo é basicamente sua divisão entre ricos e pobres. Os adolescentes ricos estudam, preparando-se para uma boa faculdade. Também vão às baladas, se divertem com o dinheiro de seus pais, coisas que os pobres não têm acesso. Mas todos eles estão expostos ao ficar, namorar, transar, fumar, beber, se drogar, brigar, roubar, traficar, matar. Dependendo da formação familiar, principalmente, e das oportunidades que lhes são oferecidas, eles escapam ilesos desses problemas, e chegam à idade adulta sem grandes traumas. Contudo, a maioria ainda está submetida à marginalidade.
Essa situação de ociosidade, criada por lei para os adolescentes, é muito perniciosa. Na verdade, eles já têm condições físicas, psicológicas, emocionais e cognitivas para realizar qualquer atividade. E é exatamente o que querem provar e provam, quando buscam no crime, no sexo, nas drogas saídas para suas diversas necessidades e carências, por não terem outra alternativa de preencher seu precioso tempo. Quando estudam, porque sabemos que há centenas de jovens fora da escola, nela permanecem por um período de pouco mais de 5 horas. Tem todo o restante de tempo livre, incluindo boa parte da noite, uma vez que não têm mais o hábito de dormir cedo. Sem qualquer parâmetro do que seja certo/errado, devido/indevido, conveniente/inconveniente, os adolescentes passam por essa fase de suas vidas. Os próprios pais declaram com suas palavras “não sei o que fazer com ele (a)”.
Adolescentes que vivem dissolutamente parecem querer se rebelar contra o mundo que os aprisiona em códigos e leis, limitando seu potencial de produção e inserção no mundo adulto, com direitos e deveres assegurados. Eles sentem a necessidade de serem reconhecidos como sendo capazes. No entanto, essa mesma lei não consegue impedi-los de fumar, beber, prostituir-se, praticar diversos crimes. A lei não dá o respaldo legal para os impedir de fazer o que não devem, exatamente porque não lhes oferece espaço e condições de educação e trabalho. A lei poda por não ter o que oferecer. Os adolescentes acabam vivendo de futilidades e causando problemas à sociedade e gastos aos cofres públicos, além de se ferirem, é claro.
Não é novidade que atualmente as crianças, especialmente as meninas, amadurecem mais cedo. A maioria das meninas tem a primeira menstruação entre 9 e 11 anos. Fenômeno impulsionado pela sociedade moderna. Todos sabem que nas famílias carentes, e são a maioria, até mesmo as crianças precisam ajudar no orçamento financeiro. Então porque não permitir que um jovem de 15 anos possa estudar e trabalhar, com todos os direitos assegurados pela lei trabalhista. Porque ele não pode dirigir? Sabemos que dirige mesmo sem a habilitação. Seria inclusive uma forma de fazê-lo pensar sobre suas atitudes.
As leis não garantem seus direitos de crescerem e amadurecerem como cidadãos, porque lhes falta, além de condições dignas de moradia, alimentação, saúde e lazer, uma educação de qualidade que lhes garanta liberdade de escolha.
JECELI APARECIDA FAZIONI SOUSA
Assim como também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos (1 Cor 10.33)
ADOLESCERE
A origem da palavra adolescente é adolescere (latim). Significa que se desenvolve, cresce. Os adolescentes estão sim em desenvolvimento, o que não significa que estão impossibilitados de discernir o certo do errado, o bem do mal. Pelo contrário, amadurecerão mais e melhor – com qualidade integral – se participarem ativa e efetivamente da sociedade, seja trabalhando, estudando, votando, dirigindo, enfim, tomando decisões, sendo produtivos para si mesmos e para a sociedade.
Já se incorporou a idéia de que adolescente vive uma fase de conflitos. Usa-se inclusive o termo aborrescente, referindo-se à rebeldia de todos os tipos. Incorporada essa ideia, é fácil aceitar e admitir que os adolescentes não têm condições de assumir responsabilidades quanto a trabalho, decisões, profissão, relacionamentos. Acontece que os próprios adolescentes também incorporaram essa falsa ideia de que são “vítimas” de uma fase tão “complicada e difícil”. Acabam condicionados a atestarem que realmente é doloroso ser adolescente, e que é necessário ser um grupo à parte, assumindo comportamentos típicos desse grupo. Igualam-se pelas roupas, cabelo, linguagem, preferências. Tudo regado à rebeldia.
É certo que a fase existe. Todos os adultos passaram por ela. Porém, o comportamento rebelde não é genético, é cultural e social. E admitir que tem de ser uma fase difícil, complicada, rebelde, e ainda assegurá-la por lei, é admitir o retrocesso ao invés do desenvolvimento sadio. É preciso delegar tarefas e responsabilidades aos adolescentes, além de pseudos direitos que não lhes garantem dignidade de amadurecerem como pessoas.
Cabe às famílias, em primeiro lugar, atentar para essa questão e não permitir que seus filhos assumam comportamentos ditados pela sociedade e cultura modernas, conscientizando-os de que seu desenvolvimento e amadurecimento podem acontecer de maneira mais tranquila e saudável. E mais do que conscientizá-los, a família – os adultos – devem proporcionar-lhes esse desenvolvimento, por meio do afeto, carinho, atenção, diálogo, respeito. Enfim, assumir o papel na responsabilidade de educá-los para a vida adulta.
É urgente que a sociedade possa tratar a adolescência como uma fase normal, em que o adolescente deva ter a chance de crescer e amadurecer com saúde e qualidade de vida.
JECELI APARECIDA FAZIONI SOUSA
Afasta, pois, do teu coração o desgosto e remove da tua carne a dor, porque a juventude e a primavera da vida são vaidade (Ec 11.10)
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