O TRABALHO DO EDUCADOR

A valorização da aprendizagem tem sido assinalada em trabalhos educacionais e encontra respaldo na legislação do ensino. A Constituição de 1988 e a LDB de 1996, especificamente, nas quais podemos localizar essa preocupação. E essas leis expressam com relação à aprendizagem dos alunos…

Antes de tudo, é preciso considerar o que os textos dos documentos acima citados garantem como prioridade à educação, mas que deixam de ser cumpridos. O que, por sua vez, compromete a responsabilidade dos profissionais da educação, especialmente os professores, que trabalham diretamente como nossos alunos. Por conta dessa falta de coesão, muito do que se refere à Constituição Federal e à LDB de 1966, no que diz respeito à garantia do acesso e à qualidade da educação oferecida, está fadado ao fracasso, por conta desses e de tantos outros entraves que ainda não foram resolvidos.

Procurei destacar os textos referentes à responsabilidade do Estado e das instituições educacionais – o que inclui a responsabilidade específica do professor.

Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

Essa tal igualdade deixa de existir quando nossos alunos não têm moradia, alimentação e saúde em condições mínimas para que possam deixar suas casas, virem para a escola, e freqüentarem uma sala de aula, com saúde, disposição e emocionalmente estáveis. Eles vêm, mas não como iguais. A escola, o currículo, a aprendizagem é oferecida, mas diferentemente apreendida por cada um desses alunos.

Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;

Quando nossas escolas – prédios escolares – não têm salas de aulas com iluminação, ventilação e acústica adequadas; quando não têm refeitórios, quadras de esporte, pátios para as crianças se sentirem livres para se locomover durante os intervalos; quando as salas de aulas têm de competir com os espaços destinados ao recreio (barulho especificamente, porque muitas delas têm de fazer dois recreios, devido à falta de espaço para todos os alunos do mesmo período); quando nossas escolas não têm funcionários em quantidade suficiente para os tantos trabalhos exigidos; quando nossos professores cumprem 8 horas no mínimo em sala de aula por dia – muitas vezes até 12, porque trabalham em jornada dupla; quando os gestores precisam cobrir a falta do funcionário; quando em nossas escolas não há bibliotecas com espaço adequado e pessoal capacitado para atender aos nossos alunos; quando em nossas escolas não há auditório, sala de vídeo, sala de reunião, sala de professor, sala de coordenador, sala do vice, sala de informática funcionando. Enfim, quando não existe infra-estrutura para sustentar um trabalho de qualidade para nossos alunos e professores. Quando praticamente tudo está na contramão do sucesso e da qualidade, torna-se muito difícil, quase impossível, desenvolver um trabalho que resulte em qualidade na aprendizagem de nossos alunos. Por isso, os resultados não são satisfatórios.

I – erradicação do analfabetismo;

A erradicação do analfabetismo deve acontecer ao final do ciclo I do ensino fundamental.  Não é o que tem acontecido. Temos recebido cada vez mais alunos no 6.º ano que ainda não conhecem o alfabeto – não escrevem, não lêem. Isso compromete o trabalho do professor em sala de aula, compromete a aprendizagem desse aluno, por conta de uma série de fatores. Sabe-se que os professores PEB II não sabem alfabetizar, e a Recuperação Paralela não dá conta de resolver esse problema – seja porque também os professores da RP não conseguem alfabetizar, seja porque não há salas de aulas para o desenvolvimento desse trabalho em horário diverso do período em que o aluno da RP estuda – as aulas da RP acontecem sempre na sexta aula da manhã ou da tarde para o ensino fundamental – quando o aluno já está cansado, etc.

Enfim, impossível elencar em poucas palavras os tantos problemas que interferem na qualidade da aprendizagem de nossos alunos, e que estão presentes todos os dias em nosso cotidiano.

Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:

III – atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino;

É com preocupação que comento essa questão. Não temos professores especializados para atender crianças com alguma necessidade especial. Esse atendimento educacional especializado deve começar pelo profissional que atende a esse aluno na rede regular de ensino. Sei de casos de alunos com deficiência intelectual que aprenderam rudimentos de leitura, escrita e cálculo. E quando chegam ao 9.º ano, desistem de continuar, por conta de tantas dificuldades que os afligem nessa fase. Esse adolescente não tem apoio da sociedade para desenvolver alguma atividade remunerada. Quando criança, não recebeu tratamento médico adequado. Inclusive, muitos desses casos que chegam à rede no 6.º ano do fundamental ainda não foram encaminhados para qualquer especialidade médica. Passam despercebidos pelos postos de saúde e escolas municipais do ciclo I.

Art. 13. Os docentes incumbir-se-ão de:

i – participar da elaboração da proposta pedagógica do estabelecimento de ensino;

ii – elaborar e cumprir plano de trabalho, segundo a proposta pedagógica do estabelecimento de ensino;

iii – zelar pela aprendizagem dos alunos;

iv – estabelecer estratégias de recuperação para os alunos de menor rendimento;

v – ministrar os dias letivos e horas-aula estabelecidos, além de participar integralmente dos períodos dedicados ao planejamento, à avaliação e ao desenvolvimento profissional;

vi – colaborar com as atividades de articulação da escola com as famílias e a comunidade.

 

Quanto ao artigo 13 da LDB é preciso reconhecer que nossa escola tem falhado no desenvolvimento e aplicação desses itens. Exatamente por conta do que já foi descrito acima com relação a problema e entraves, e também devido a uma cultura já estabelecida ao longo de décadas. É preciso um trabalho intensivo nesse sentido. O coordenador pedagógico tem um papel fundamental no aperfeiçoamento desse trabalho. Acontece que ainda o coordenador realiza infinitas funções que não são suas. Já faz parte da cultura escolar o coordenador fazer a vez do inspetor, diretor, vice, demais funcionários. É preciso travar uma guerra para vencer essa barreira. Todos na escola já se acostumaram ao longo de anos com esse papel do coordenador, e agora todos têm cristalizada essa falsa idéia do papel do coordenador pedagógico.

Sobre planejamento e avaliação, é notório que as escolas não têm conseguido realizar de maneira coesa e coerente essas ações. Planejar e avaliar na instituição escola ainda é uma prática tradicionalmente irrelevante. Hoje isso está mudando. Mas o legado é forte. Até mesmo porque os momentos destinados para sua discussão e aplicação são insuficientes. São necessárias mais horas de trabalho pedagógico coletivo durante a semana.  O professor também precisa de mais tempo livre na escola para dedicar ao trabalho de análise dos casos de seus alunos.

Quanto à avaliação, para que seja bem sucedida, é essencial o papel do professor coordenador. Ele deve acompanhar de perto o desenvolvimento de todo o processo de ensino e aprendizagem dos alunos. Acompanhar a ministração das aulas, as formas de avaliação. O desempenho dos alunos. Garantir a sintonia entre o planejamento pedagógico, o currículo, os planos de aulas. Oportunizar a formação continuada dos professores, priorizando os aspectos que apresentam maior dificuldade. Conhecer seus professores, identificando e atendendo suas necessidades.

Para que se mude o foco da avaliação é preciso mudar concepção de ensino e aprendizagem, o que inclui a clareza da responsabilidade das partes, seja professor, coordenador, diretor, vice, agente de organização, etc. As mudanças não apenas nas avaliações, mas na forma de gestão como um todo são mais que urgentes e necessárias em nossas escolas para que melhore a aprendizagem de nossos alunos.

A começar pelas avaliações, é preciso que se avalie para a aprendizagem. A tradição negativa persiste: avaliar tem significado de atribuir notas, e nada mais. Nós fomos ensinados assim. A tirar nota para passar de ano. O professor aprendeu que avaliar é ver o que o aluno acertou do que foi “ensinado” e lhe atribuir uma nota.

A avaliação deve ser qualitativa, não como vem sendo realizada tradicionalmente em nossas escolas. Avaliar a qualidade de nossas aulas e a aprendizagem de nossos alunos significa rever práticas, conceitos, concepções.

Mais uma vez, refiro-me ao papel fundamental do professor coordenador. Começa por sua concepção, sua prática, seus conceitos sobre educação, qualidade, avaliação, aprendizagem, planejamento. O professor coordenador é o primeiro que deve ter claras essas idéias e colocá-las em prática. Acompanhar de perto o trabalho de seus professores, a aprendizagem de seus alunos.

As mudanças devem acontecer pela avaliação dos problemas que nos afligem nas escolas. Mas é preciso que seja uma avaliação também qualitativa, diagnóstica, formativa. Assim como nos é proposto, e concordo que seja, que façamos avaliações para garantir a aprendizagem, não o fracasso de nossos alunos, da mesma forma, as avaliações externas sobre a qualidade da educação devem garantir o respaldo aos problemas identificados.

Sei que, se o professor coordenador conseguir realizar integralmente sua função, que é a pedagógica, a qualidade da educação pode melhorar, a aprendizagem pode melhorar. Contudo, mesmo assim, não é possível negligenciar tantos fatores que cooperam para um desempenho ruim dos que trabalham na escola.

 

 

 

 

 

 

 

As principais transformações propostas para a cultura de avaliar, e, por conseguinte, para a cultura de ensinar e aprender, especialmente a partir da década de 1990

 A partir da década de 1990 as decisões na escola deixaram de ser tão centralizadas, podendo contar com a participação de toda a comunidade escolar – gestão democrática do ensino público – leis previstas na Constituição de 1988 e na LDB de 1996. Essa medida veio contribuir para a melhoria da aprendizagem, porque, descentralizando as decisões, foi possível pensar e refletir em conjunto as questões referentes ao ensino, avaliação, planejamento, proposta pedagógica da escola, entre outras. Foi uma grande contribuição porque deu voz à comunidade, que pôde participar mais ativa e efetivamente em tudo o que é de interesse de todos, especialmente dos responsáveis diretos pelos alunos. Até mesmo para que houvesse maior participação dos pais na vida escolar de seus filhos, e maior compromisso desses, podemos dizer que especialmente nesse aspecto essa lei foi uma grande contribuição. Exatamente para que se integrem escola e comunidade – consequentemente, alunos, pais e instituição –, deve ser posto em prática esse princípio da gestão democrática na escola. No entanto, essa realidade ainda não se concretizou na maioria das unidades escolares, pelo que se verifica, por meio de pesquisas e até mesmo por experiência. Até se fala em gestão democrática, na participação da comunidade, se dá abertura para que haja essa comunicação entre os pares; existem os conselhos de escola, os conselhos de classe, os grêmios estudantis, mas tudo ainda está submetido a decisões centralizadas, à pouca ou nenhuma discussão referente ao planejamento, à proposta pedagógica, à avaliação. Os pais dos alunos ainda estão à parte de quase todas as decisões que dizem respeito à vida de seus filhos. Deixam tudo por conta da escola, não se envolvem.

Para que haja participação efetiva da comunidade no processo de ensino e de aprendizagem escolar é preciso convocar os pais, dar-lhes a palavra, apontar-lhes o caminho, discutir sobre seus diretos e deveres, sobre as leis que amparam sua participação nas decisões escolares. Chamá-los à responsabilidade. A maioria dos pais desconhece a lei que diz respeito à gestão democrática nas escolas. As unidades escolares mantêm uma cultura, uma tradição enraizada de centralização das decisões, na forma de avaliação, na forma de correção, na forma de planejamento. Por outro lado, os pais também se acomodaram nesse princípio de centralização de poderes e decisões, e não se esforçam para fazer parte da gestão. São totalmente alheios ao processo de ensino com todo seu respaldo legal administrativo e pedagógico. É algo que está mudando, mas aos poucos. A qualidade do ensino pode melhorar muito se houver participação nas decisões dos conselhos, na construção da proposta pedagógica da escola, no planejamento escolar, enfim, no processo de ensino e aprendizagem como um todo.

Planejar e avaliar são ações conjuntas e realizadas em parceria, em discussão, em equipe. A começar pela escola é preciso que ela se conscientize primeiramente do seu papel de investir na parceria com a comunidade escolar. É uma necessidade urgente, com respaldo legal.

ADOLESCENTES

 

 

Convivendo com os adolescentes todos os dias, como educadora em uma escola pública, tenho tido a oportunidade de observar e refletir sobre as necessidades e carências desse grupo, teoricamente tão privilegiado e acolhido pelas leis do país, incluindo o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), mas ao mesmo tempo tão excluído de seus direitos e deveres, mais ainda de seus direitos. Direito de aprender, conhecer, refletir, amadurecer.

Vejo que os adolescentes, de uma maneira geral, têm muito tempo livre, pouco compromisso com os estudos, não têm um trabalho fixo – mesmo porque não podem trabalhar, por lei –, raríssimas oportunidades de frequentar um clube recreativo, desejo extremo de se divertir, serem úteis e produtivos para a sociedade. O que lhes resta é preencher seu tempo livre com o que é de mais fácil acesso e, de preferência, que não tenha custos.

Verifico que a grande diferença nesse grupo é basicamente sua divisão entre ricos e pobres. Os adolescentes ricos estudam, preparando-se para uma boa faculdade. Também vão às baladas, se divertem com o dinheiro de seus pais, coisas que os pobres não têm acesso. Mas todos eles estão expostos ao ficar, namorar, transar, fumar, beber, se drogar, brigar, roubar, traficar, matar. Dependendo da formação familiar, principalmente, e das oportunidades que lhes são oferecidas, eles escapam ilesos desses problemas, e chegam à idade adulta sem grandes traumas. Contudo, a maioria ainda está submetida à marginalidade.

Essa situação de ociosidade, criada por lei para os adolescentes, é muito perniciosa. Na verdade, eles já têm condições físicas, psicológicas, emocionais e cognitivas para realizar qualquer atividade. E é exatamente o que querem provar e provam, quando buscam no crime, no sexo, nas drogas saídas para suas diversas necessidades e carências, por não terem outra alternativa de preencher seu precioso tempo. Quando estudam, porque sabemos que há centenas de jovens fora da escola, nela permanecem por um período de pouco mais de 5 horas. Tem todo o restante de tempo livre, incluindo boa parte da noite, uma vez que não têm mais o hábito de dormir cedo. Sem qualquer parâmetro do que seja certo/errado, devido/indevido, conveniente/inconveniente, os adolescentes passam por essa fase de suas vidas. Os próprios pais declaram com suas palavras “não sei o que fazer com ele (a)”.

Adolescentes que vivem dissolutamente parecem querer se rebelar contra o mundo que os aprisiona em códigos e leis, limitando seu potencial de produção e inserção no mundo adulto, com direitos e deveres assegurados. Eles sentem a necessidade de serem reconhecidos como sendo capazes. No entanto, essa mesma lei não consegue impedi-los de fumar, beber, prostituir-se, praticar diversos crimes. A lei não dá o respaldo legal para os impedir de fazer o que não devem, exatamente porque não lhes oferece espaço e condições de educação e trabalho. A lei poda por não ter o que oferecer. Os adolescentes acabam vivendo de futilidades e causando problemas à sociedade e gastos aos cofres públicos, além de se ferirem, é claro.

Não é novidade que atualmente as crianças, especialmente as meninas, amadurecem mais cedo. A maioria das meninas tem a primeira menstruação entre 9 e 11 anos. Fenômeno impulsionado pela sociedade moderna. Todos sabem que nas famílias carentes, e são a maioria, até mesmo as crianças precisam ajudar no orçamento financeiro. Então porque não permitir que um jovem de 15 anos possa estudar e trabalhar, com todos os direitos assegurados pela lei trabalhista. Porque ele não pode dirigir? Sabemos que dirige mesmo sem a habilitação. Seria inclusive uma forma de fazê-lo pensar sobre suas atitudes.

As leis não garantem seus direitos de crescerem e amadurecerem como cidadãos, porque lhes falta, além de condições dignas de moradia, alimentação, saúde e lazer, uma educação de qualidade que lhes garanta liberdade de escolha.

JECELI APARECIDA FAZIONI SOUSA

Assim como também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos (1 Cor 10.33)

ADOLESCERE

A origem da palavra adolescente é adolescere (latim). Significa que se desenvolve, cresce. Os adolescentes estão sim em desenvolvimento, o que não significa que estão impossibilitados de discernir o certo do errado, o bem do mal. Pelo contrário, amadurecerão mais e melhor – com qualidade integral – se participarem ativa e efetivamente da sociedade, seja trabalhando, estudando, votando, dirigindo, enfim, tomando decisões, sendo produtivos para si mesmos e para a sociedade.

Já se incorporou a idéia de que adolescente vive uma fase de conflitos. Usa-se inclusive o termo aborrescente, referindo-se à rebeldia de todos os tipos. Incorporada essa ideia, é fácil aceitar e admitir que os adolescentes não têm condições de assumir responsabilidades quanto a trabalho, decisões, profissão, relacionamentos. Acontece que os próprios adolescentes também incorporaram essa falsa ideia de que são “vítimas” de uma fase tão “complicada e difícil”. Acabam condicionados a atestarem que realmente é doloroso ser adolescente, e que é necessário ser um grupo à parte, assumindo comportamentos típicos desse grupo. Igualam-se pelas roupas, cabelo, linguagem, preferências. Tudo regado à rebeldia.

É certo que a fase existe. Todos os adultos passaram por ela. Porém, o comportamento rebelde não é genético, é cultural e social. E admitir que tem de ser uma fase difícil, complicada, rebelde, e ainda assegurá-la por lei, é admitir o retrocesso ao invés do desenvolvimento sadio. É preciso delegar tarefas e responsabilidades aos adolescentes, além de pseudos direitos que não lhes garantem dignidade de amadurecerem como pessoas.

Cabe às famílias, em primeiro lugar, atentar para essa questão e não permitir que seus filhos assumam comportamentos ditados pela sociedade e cultura modernas, conscientizando-os de que seu desenvolvimento e amadurecimento podem acontecer de maneira mais tranquila e saudável. E mais do que conscientizá-los, a família – os adultos – devem proporcionar-lhes esse desenvolvimento, por meio do afeto, carinho, atenção, diálogo, respeito. Enfim, assumir o papel na responsabilidade de educá-los para a vida adulta.

É urgente que a sociedade possa tratar a adolescência como uma fase normal, em que o adolescente deva ter a chance de crescer e amadurecer com saúde e qualidade de vida.

 

JECELI APARECIDA FAZIONI SOUSA

Afasta, pois, do teu coração o desgosto e remove da tua carne a dor, porque a juventude e a primavera da vida são vaidade (Ec 11.10)

POR QUE OS JOVENS NÃO QUEREM SEGUIR A CARREIRA DO MAGISTÉRIO

Segundo apontam pesquisas, a carreira do magistério é uma das menos procuradas pelos jovens. O que não é novidade. Contando com um dos mais baixos salários e contrárias condições de trabalho, a profissão ainda exige que se trabalhe muito para que se possa sobreviver mais dignamente.

Considerando que os dois primeiros apontamentos representam as primeiras variáveis quando se pensa em uma profissão, mas que nem sempre são decisivas na escolha de um candidato, e considerando ainda que trabalhar menos ou mais não serve como desempate na maioria dos casos, o que estaria realmente definindo a decisão?

Certamente o grande peso quando se pensa em ser professor, arrisco-me a afirmar, não são os baixos salários, não são as condições de trabalho, nem mesmo a jornada dupla da maioria dos casos. Mas, com certeza, somando-se aos pontos destacados, o grande desafio representa, por contradição, a dificuldade de se ensinar nos dias atuais.

Entendendo que somente por meio da educação de nossas crianças e jovens podemos falar em justiça e cidadania, exercer a profissão de professor está tornando-se cada vez mais difícil por conta dos desafios de se trabalhar com crianças, jovens e adolescentes em grupos tão diversificados e ao mesmo tempo tão homogêneos. Diversificados, considerando as particularidades de cada ser. Homogêneos, por conta da própria geração participante de uma sociedade globalizada. Somando-se a isso as legislações que regem todo o universo educacional, em vários aspectos precisando de reformas urgentes.

Enquanto várias profissões acompanham seu tempo, acomodando-se e aproveitando-se das transformações da modernidade, o magistério, por mais que se utilize de benefícios da tecnologia disponível, não pode e não consegue ignorar que o seu grande embate é justamente acreditar e lutar por uma sociedade mais justa e organizada, a qual só pode ser trabalhada e fortalecida por meio da educação formal que, por sua vez, tem de ser desenvolvida em contextos tão contraditórios. É uma grande responsabilidade.

Assumir o magistério é assumir compromisso com vidas, muitas delas já desacreditadas de si mesmas. É ver possibilidades de mudanças e transformações em mentes cristalizadas pela corrupção do mundo. Assumir o magistério é vislumbrar o sucesso em crianças, jovens e adolescentes que não dispõem de condições sociais, emocionais e até mesmo físicas como pré-condições para tal. Essa realidade tem um peso, uma carga emocional muito forte.

Sob essas condições atua o professor. Se não conseguir vislumbrar em seus alunos futuros homens e mulheres vencedores, apesar das circunstâncias, certamente sentir-se á cada vez menos estimulado a optar ou a continuar na profissão. Pois a decepção e o sentimento de derrota diante das adversidades podem consumir suas forças, seus sonhos, seus ideais.

“Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos”

(Romanos 4. 8-9)

JECELI APARECIDA FAZIONI SOUSA

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PROFESSORES SEMPRE REFLEXIVOS

Em reunião com um grupo de professores da escola onde trabalho, durante a leitura e estudo de um texto sobre o professor reflexivo; pelas falas de cada um, pela postura como educador, por seus depoimentos e atuação como pais, amigos, colegas, parceiros. Pela própria condução da plenária, sob a forma como transcorreu, pude contemplar e constatar o quanto somos, na prática e na teoria, altamente reflexivos. E para que não prevaleça a falsa idéia de que não somos reflexivos, escrevo este texto.

 

Somos reflexivos sim. Sempre somos. Contudo, não discursamos em jornais, revistas, livros, rádio, televisão. Nosso interlocutor não aparece na mídia. Ainda nem tem idade legal para se manifestar de alguma forma. É para esse público que manifestamos nossas idéias e pensamentos. Fazemos isso inclusive de maneira involuntária. Faz parte de nosso contexto. Interagimos com esse interlocutor que ainda está em processo de formação, mas que já é tão crítico e capaz de também expor seu ponto de vista.

 

Essa nossa forma de atuação faz parecer que trabalhamos calados, até mesmo alienados dos problemas que afligem nosso tempo. Quem está à frente da batalha não tem tempo hábil nem a pretensão de divulgar sua prática. Ele batalha, luta com os instrumentos disponíveis para salvar vidas, para proporcionar melhores dias para toda a sociedade. Quem ouvisse os professores argumentando sobre as ideias do texto, poderia, com certeza, escrever outro texto que descrevesse o quanto os professores são críticos e reflexivos – aliás, por ser essa uma capacidade própria do ser humano – acaba sendo melhor desenvolvida por aqueles que partilham o/do conhecimento.

 

Escrevem para nós, sobre nós, de nós, mas não escrevem conosco. Não podem abraçar nossos ideais. São expectadores críticos. Inteligentes, reflexivos, sem dúvida. Compartilhamos de suas idéias e opiniões. Mas ainda não atuam no mesmo universo que o nosso. Por isso, em alguns momentos, somos obrigados a discordar de algumas de suas colocações. Contudo, precisamos de suas reflexões, que muito contribuem para nossa formação.

 

Nessa minha caminhada, há dez anos, tenho tido o privilégio de interagir com profissionais que se preocupam com o ser humano, acima de tudo. Sempre em suas falas estão presentes a auto-reflexão, a preocupação com o outro, com suas próprias atribuições e responsabilidades. Isso é reflexão. Só não é divulgada. Ainda fazemos um trabalho solidário e solitário. Vai chegar o momento em que nossas vozes ecoarão, e já não estaremos apenas lendo a reflexão de outros, mas a nossa própria história.

 

FELIZ O HOMEM QUE ACHA SABEDORIA, E O HOMEM QUE ADQUIRE CONHECIMENTO (Pv 3.13)

 

JECELI APARECIDA FAZIONI SOUSA

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